quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

MESTRES DO CONTO DO Séc. XIX

Mestres do conto do Século XIX - Guy de Maupassant

GUY DE MAUPASSANT (1850-1893)
Um dos maiores contistas de todos os tempos, Guy de Maupassant teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo francês, em companhia da mãe, uma mulher culta, depressiva, que fora abandonada por um marido infiel. Na década de 1870, ele dirigiu-se a Paris, onde se notabilizou como contista e travou relações com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turgueniev.
Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, das quais algumas tornaram-se universalmente conhecidas, como Bola de sebo, O colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett, entre outras. De forma muito rápida, conquistou o coração do público francês e o de outros países. Talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.

A riqueza e a fama bateram à sua porta, e ele teve uma profusão de casos amorosos. No entanto, a partir de 1884 a sífilis manifestou-se em seu organismo, ocasionando-lhe uma doença nervosa feita de angústias inexplicáveis, de estremecimentos e de alucinações. Algumas dessas sensações estranhas e opressivas foram registradas em contos tão célebres quanto assustadores, como O Horla e É ele. Em 1882, após terríveis sofrimentos, tentou o suicídio. Hospitalizado, veio a morrer no ano seguinte, em estado de semidemência, com apenas 43 anos de idade.
O primeiro aspecto que chama atenção na obra de Maupassant é a sua variedade temática. Poucos escritores conseguem dar esta impressão de registro de totalidade da existência, de criação de um universo fecundo, múltiplo e quase inesgotável. Escreve sobre Paris, então capital do Ocidente, enfocando várias classes: burgueses, operários, prostitutas, boêmios, intelectuais, funcionários. Escreve também sobre a vida rural, fixando a avareza, a selvageria e a capacidade de resistência dos camponeses. Algumas de suas obras-primas referem-se à Guerra Franco-Prussiana, de 1870. No fim da vida, atormentado por pesadelos, cria histórias cheias de personagens paranóicas.
Há contos para todos os gostos: dos cômicos aos dramáticos, dos pitorescos aos trágicos. Alguns mostram a dor da passagem do tempo; outros, a alegria do presente. Há os que celebram o amor ideal e há os que cantam a brevidade do amor erótico. Muitos registram o cotidiano, alguns enveredam pelo caminho da assombração. Como um pintor impressionista, Maupassant pinta as luzes de Paris: as que reverberam no Sena, as que cintilam nos parques e as que brilham à noite nos boulevards. Luzes que envolvem as personagens nos dramas essenciais da condição humana: a paixão, o prazer, a solidão, o tédio, a morte. É o cronista da vida européia do fim dos Oitocentos, mas também um escritor de dimensão universal.
Quanto à estrutura do gênero, Maupassant fundamenta e dá prestígio a um tipo de narrativa breve, hoje chamada de conto tradicional ou conto anedótico. Caracteriza-se por uma reviravolta surpreendente, quase sempre no desfecho da história. Ou seja, o final do relato deve apresentar algo de inesperado e de impactante ao leitor. Para que esse efeito de surpresa se realize, o contista francês confere a seus textos um teor objetivo mediante a máxima economia de detalhes, da linguagem seca e direta e do diálogo coloquial. Além disso, entre suas virtudes principais situa-se a capacidade de, em poucos traços, definir caracteres e revelar a classe social dos protagonistas.
Há quem julgue Maupassant um artista de superfície, por tentar reproduzir apenas a realidade exterior, sem maior aprofundamento psicológico. Alguns de seus contos, de fato, são crônicas de época; outros, meras anedotas. Contudo, como observou um crítico, “o escritor é profundo na aparente superficialidade porque reconhece o vazio da vida de suas personagens, que buscam o prazer, mas que encontram apenas a destruição fatal”.
Mestres do conto do Século XIX - Anton Tchecov

ANTON TCHECOV (1860-1904)
Anton Tchecov nasceu em 1860 na Ucrânia — então pertencente à Rússia tsarista —, filho de uma família humilde; seu avô havia sido servo da gleba e seu pai era um pequeno comerciante. Mesmo assim, com muitos sacrifícios realizou estudos secundários e ingressou na Faculdade de Medicina de Moscou, para onde se transferira com todos os familiares. A profissão de médico lhe proporcionou um grande conhecimento da vida e do ser humano, e o sucesso imediato de seus primeiros contos (humorísticos, em geral) e a recepção futura de toda a sua obra, especialmente peças teatrais de enorme aceitação pública, permitiram-lhe viver de sua produção literária. Em 1898, casou-se com uma célebre atriz do teatro russo e, em 1904, atacado pela tuberculose, veio a morrer na Alemanha, para onde fora em busca de melhora em seu estado de saúde. Tinha então 44 anos.
Tchecov inventou uma nova forma de escrever contos: “um mínimo de enredo e o máximo de emoção”. Às histórias intrigantes, de desfecho inesperado, que predominavam entre os praticantes do gênero, ele preferiu criar atmosferas, registrando situações abertas que não se encerravam no fim dos relatos. É o que chamamos hoje de conto moderno. Com uma visão de mundo ora humorística, ora poética, ora dramática, Tchecov captou momentos ocasionais da realidade, fatias de vida, pequenos flagrantes do cotidiano, estados de espírito da gente comum. A genialidade de sua arte está em transformar uma série de incidentes laterais e de pormenores aparentemente insignificantes da existência individual em representações perfeitas do destino humano.
No conjunto (incluindo-se até mesmo as histórias cômicas), a obra de Tchecov é profundamente melancólica. Tédio, vazio e falta de sentido corroem a alma de quase todas as personagens, cujas ilusões são desfeitas no dia-a-dia, na banalidade em que tudo (amor, ideal, busca do prazer ou do triunfo) se converte. A vida, no campo ou na cidade, nas províncias ou na capital, é sempre a mesma: comum, medíocre, desalentadora. Não importa se os protagonistas dos contos são aristocratas ou burgueses, funcionários ou artistas, operários ou camponeses, homens ou mulheres: o que os aguarda é a mesma tristeza miúda, o mesmo bocejo, a mesma amargura. Um véu cinzento cobre a tudo e a todos. Apesar disso, como observaram vários estudiosos, sobra em Tchecov um núcleo de compaixão pelos seres humanos que confere a seus textos uma doçura e uma beleza insuperáveis. É literatura das maiores que já se fizeram em qualquer época.
Mestres do conto do Século XIX - Máximo Gorki

MÁXIMO GORKI (1868-1936)
Máximo Gorki (gorki em russo significa amargo) foi o pseudônimo de Aleksei Maksímovich Peshcov, que nasceu em uma pequeno lugarejo do interior da Rússia, rebatizado como Gorki, em 1932, por ordens de Stálin. O escritor estava então no apogeu de sua glória literária. Contudo, para chegar a esta posição, Gorki passara por um conjunto de experiências humanas de alta dramaticidade. Filho de uma família muita humilde, ficou órfão aos sete anos e, a partir daí, foi obrigado a trabalhar para prover o próprio sustento. Exerceu vários ofícios, atravessando a vasta região do Volga em busca de oportunidades. Desenvolveu uma espécie de espírito de andarilho, em que a curiosidade e a simpatia pela humanidade sofredora lhe permitiu a sobrevivência psicológica em meio a tantas dificuldades. Com isso adquiriu também um notável conhecimento das camadas populares russas, conhecimento que seria usado mais tarde na criação dos principais protagonistas de seus contos e romances.

Ao mesmo tempo em que vagava pelo imenso país, Gorki revelava grande interesse pela leitura, tornando-se um autodidata, isto é, um jovem de surpreendente cultura, apesar de ter freqüentado a escola primária somente por uns poucos meses. Sua inteligência, contudo, não impediu que atormentado pela luta da sobrevivência, pela infelicidade pessoal e pela solidão, tentasse o suicídio. A literatura, no entanto, o salvou. Pôs-se a escrever obsessivamente, e seus primeiros contos foram publicados a partir da década de 1890, obtendo grande repercussão. Sobre esta época de sua vida, deixou um comovente texto de memórias que é a sua obra-prima: Ganhando meu pão. Suas memórias continuaram em Minhas universidades, igualmente fascinantes, mas sem a mesma beleza poética do primeiro livro.

Logo a seguir, Gorki aderiu ao marxismo e militou em inúmeros grupos revolucionários. Em 1905, após o fracasso da primeira revolução que pretendia derrubar o Czar, acabou preso. No ano seguinte, porém, sob fortíssima pressão da comunidade internacional, as autoridades russas foram obrigadas a libertá-lo. Gorki viajou então para a Itália, onde morou até o triunfo da Revolução Soviética, em 1917. Apesar de sua amizade com Lênin, o escritor só retornou definitivamente à Rússia em 1928, transformando-se de imediato na maior figura literária do regime comunista. Sua morte, ocorrida em 1936, despertou suspeitas de envenenamento que nunca foram confirmadas.
A obra de Gorki centra-se no submundo russo. O ficcionista registrou com vigor e emoção personagens que integravam as classes excluídas: operários, vagabundos, prostitutas, gente humilde, homens e mulheres do povo. Autores realistas e naturalistas já tinham incorporado estes setores sociais à literatura, mas olhavam para os pobres de fora, apenas com piedade ou com frieza. Gorki, ao contrário, conhecia aquele universo por dentro – ele próprio era um desses desvalidos – e soube captar o que havia de mais profundo na alma do povo russo. Daí a impressão de autenticidade que suas obras nos transmitem. De certa forma, ele foi o criador da chamada literatura proletária que teve seguidores no mundo inteiro, em especial na primeira metade do século XX.
Mestres do conto do Século XIX - Edgar Allan Poe

EDGAR ALLAN POE (1809-1849)
Edgar AllanPoe nasceu em Boston (EUA), no ano de1809, filho de um casal de atores pobres que estavam em turnê pela cidade. Após a fuga do pai, e com a prematura morte da mãe, em 1811, Poe foi adotado por um próspero comerciante da cidade de Richmond. Com seis anos acompanhou a sua nova família à Inglaterra, onde realizou seus primeiros estudos. Em 1820, retornando aos EUA, freqüentou uma das mais famosas escolas do país.
A partir de 1824, a família que o acolhera começou a se desintegrar, tanto pela doença da madrasta, quanto pela bancarrota do padrasto. Mesmo assim, Poe ingressou na Universidade da Virgínia, revelando-se um aluno brilhante apesar de entregar-se ao jogo e à bebida. Após uma série de conflitos com o pai adotivo que desejava que abandonasse a Literatura e se dedicasse ao comércio, Poe fugiu para Boston (1827) e lá editou seu primeiro livro de poemas. Tinha então 18 anos. Acossado pela miséria, alistou-se no exército, aproveitando o tempo vago para escrever. Dois anos depois, foi expulso da academia militar de West Point, indo morar na casa de uma tia na cidade de Baltimore.Em seguida ganhou um concurso de contos de um jornal local, iniciando assim sua carreira de ficcionista. No ano seguinte, morreu o pai adotivo sem lhe legar qualquer herança. Meses depois, Poe casou-se secretamente com sua prima Virgínia, de 14 anos. Com o passar dos anos, seu talento tornou-se cada vez mais reconhecido. Colaborou com inúmeros jornais e revistas, porém a situação financeira continuou difícil. Depressões nervosas, crises de angústia e amores infelizes ampliaram as atribulações de sua existência. Em 1847, Virgínia veio a morrer de tuberculose. Poe, então, entregou-se cada vez mais à bebida e ao ópio. No outono de1849, foi encontrado na rua em estado deplorável. Internado, faleceu alguns dias depois. Recém completara 40 anos.
Poe escreveu novelas, contos e poemas, exercendo larga influência em autores fundamentais como Baudelaire, Maupassant e Dostoievski. Admite-se hoje que a culminância de seu talento dá-se no gênero conto. Suas histórias curtas podem ser classificadas tematicamente em dois grupos principais:

a) contos de horror ou “góticos”.

b) contos analíticos, de raciocínio ou policiais. Escreveu também contos de humor e contos que anteciparam o que hoje se chama “ficção científica”.
Os contos de horror ou “góticos” apresentam invariavelmente personagens doentias, obsessivas, fascinadas pela morte, vocacionadas para o crime, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como espectros assustadores de um terrível pesadelo. Muitos destes relatos ainda causam calafrios nos leitores modernos. Entre eles destacam-se O gato preto, Ligéia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice e O barril de Amontillado.
Os contos analíticos, de raciocínio ou policiais entre os quais figuram os antológicos Assassinato de Maria Roget, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada, ao contrário dos contos de horror, primam pela lógica rigorosa e pela dedução intelectual que permitem o desvendamento de crimes misteriosos. É o início do que se convencionou chamar de literatura policial.
Poe não foi apenas um notável contista. Foi também o primeiro grande teórico do gênero, ressaltando no conto três elementos básicos: a estrutura centrada num efeito único, o valor dominante do clímax (o desfecho do conto) e o despojamento da expressão. Aliás, a linguagem das histórias curtas de Poe é elevada, porém direta, apresentando diálogos de grande força dramática que conduzem o leitor por um mundo labiríntico e asfixiante.
Mestres do conto do Século XIX - Machado de Assis

MACHADO DE ASSIS (1839-1908)
Machado de Assis nasceu em 1839, no Morro do Livramento, na cidade do Rio de Janeiro. Era mulato, filho de pais humildes e mal freqüentou a escola — sua trajetória pessoal é, por isso mesmo, impressionante. Auxiliar de tipógrafo, contínuo de repartição, funcionário público, jornalista, cronista, tradutor, o escritor fez-se do nada e sobreviveu ao destino sombrio reservado aos pobres no Brasil do século XIX. Pela qualidade de sua obra, tornou-se uma celebridade ainda em vida.

Sua ficção (romances e contos) apresenta duas fases. A primeira, ainda comprometida com certos elementos caros ao Romantismo, é prejudicada pelo esquematismo psicológico, pelo convencionalismo das situações e pelos lugares-comuns estilísticos. Já a segunda fase, iniciada na década de 1880, registra uma revolução: os caracteres das personagens aprofundam-se; o narrador, dominado por uma visão pessimista a respeito das ações humanas, encara o mundo com ironia sutil, provocando um refinamento do estilo e uma mescla na linguagem, simultaneamente clássica e moderna.
Ao contrário de seus romances, assinalados por comentários paralelos e digressões contínuas que estabelecem uma espécie de ziguezague narrativo, os contos de Machado de Assis obedecem aos princípios básicos do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática. Nada supérfluo ao desenvolvimento da trama interessa ao contista; por isso, todos os seus relatos curtos transcorrem sob certo clima de tensão, sob certo pulsar nervoso, dotando os acontecimentos de uma forte intensidade.
Mestre inquestionável da história curta, o escritor carioca experimentou todos os tipos de conto — desde o conto tradicional, à Maupassant, calcado no final surpreendente, até o conto moderno, como os de Tchecov, centrados na criação de uma atmosfera. Desenvolveu também o chamado conto de caracteres (ou psicológico), em que se apresentam tipos humanos atormentados por idéias fixas e angústias obsessivas. Produziu ainda contos alegóricos cujas histórias servem para ilustrar simbolicamente as concepções do autor a respeito da existência. Trabalhou mais raramente com o conto social, questionando, por meio do relato da vida de indivíduos simples, o reflexo brutal da ordem vigente no país.

Todas essas classificações, no entanto, são insuficientes — se não inúteis — diante da grandeza literária de tais relatos.

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